A GARDÊNIA DE ÍCARO
Gardênia não era uma flor, mas uma menina de seis anos de grande beleza, morena na pele, azul no olhar e alva na alma ou era uma flor? Uma santa? Não! Apenas uma das meninas que moravam naquele bairro proletário, aonde também residia um menino franzino, de olhar castanho sonhador e uma alma bastante inquieta. Porém, somava-se às suas características, uma fisionomia esquisita e, porque não dizer, feio de dar dó. Todavia, Ícaro, era o companheiro inseparável de Gardênia e com seus sete anos, aceitava e gostava de todas as brincadeiras que ela inventava. Essa cumplicidade os tornou inseparáveis, conforme os anos passavam, morando no mesmo bairro, estudando na mesma escola, Gardênia e Ícaro estreitavam mais e mais o seu relacionamento.
O tempo não pára, a adolescência chega, a Gardênia desabrocha e o olhar castanho de Ícaro começa a ter outros sonhos, afinal de contas, a sua alma é inquieta, o corpo se desenvolve.
A Gardênia é uma flor que exala magnífico e envolvente perfume ou é uma linda debutante com o céu nos olhos? Será mesmo uma flor? Não! Apenas uma das debutantes que moravam naquele bairro proletário, cuja alma já não era tão branca e aonde também morava o adolescente esquisito e feio de dar dó.
Passados mais alguns anos, aquela cumplicidade acabaria por levá-los ao altar da matriz em que juraram o amor eterno. Eterno? Que não tem fim ou enquanto dure? É terno por ser meigo, afetuoso? Talvez, seja só terno aquele lindo traje que Ícaro vestia durante toda a cerimônia.
Gardênia exibia acima de seu esplendoroso sorriso, as duas águas-marinha que cintilavam num azul sublime que se fazia contrastar com a brancura do seu vestido, véu e a cauda, porém a sua alma já carregava algumas inevitáveis máculas acumuladas dos seus quinze aos vinte anos.
Assim, caprichosamente, duas pessoas conviveram desde a infância e adentravam na vida adulta para assumir as suas responsabilidades, deveres e obrigações.
As folhas do calendário vão sendo amarrotadas e jogadas no lixo, os calendários vão sendo trocados, Gardênia e Ícaro trabalham bastante e dividem as despesas da casa. O relacionamento deles é irreparável, dividem as tarefas, mas o tempo passa, impiedosamente, aquela cumplicidade desde a infância continua, porém algo falta, existe um hiato em suas vidas. Sim, a falta de um filho começa a preocupá-los, pois há cinco anos que estão casados.
Procuram especialistas e recebem a informação de que Gardênia não produzirá novas flores de alma branca, por isso Ícaro não conseguirá formar seu sonhado buquê. Começa uma nova fase na cumplicidade do casal que já não é tão participativa como antes. As diferenças começam a ser observadas por Gardênia, afinal, já não era uma flor desabrochando, estava totalmente aberta e acreditava, madura para a vida. Passa a observar que as suas amigas lhes apresentam seus maridos os quais são homens com porte físico, bonitos de rosto e atraentes. Quando apresenta Ícaro às amigas, nota um certo constrangimento na fisionomia das mesmas. Aí, tendo desfeito o sonho da maternidade, ela inicia uma seqüência de observações sobre detalhes os quais nunca deu atenção, tais como: o de ser sistematicamente cortejada nas ruas e até em seu local de trabalho, aonde, por sinal, também trabalha Carlos, um paquerador irreverente e acostumado a muitas conquistas pelo seu porte físico, beleza e facilidade de diálogo.
Gardênia passa a olhar-se mais, detalhadamente, no espelho e todas as manhãs, após o banho e antes de se arrumar para o serviço, aprecia com muita atenção as suas formas físicas que a natureza generosamente lhe proporcionou. Com as colegas de serviço passa a conversar sobre relacionamentos entre os casais; o que cada uma acha de sua convivência e termina por se envolver com histórias as mais diversificadas. Algumas verdadeiras e muitas mentirosas, casos e mais casos, dos mais simples aos mais absurdos. Aos poucos começa a observar com mais rigor que Ícaro é um homem franzino, pequeno e muito feio, aliás, feio de dar dó. Por que só agora ela estava vendo isso? Foi aí que Gardênia embarcou numa canoa furada, à medida que mais se envolvia no assunto, acreditava ter sido uma cega, apesar daqueles olhos tão lindos que possuía. O azul celestial passou a cintilar com as cores nefastas da insegurança, dúvida e desejos de novas experiências, aguçadas pelos lero-leros das “amigas” de serviço e da vizinhança.
Ícaro continuava o mesmo, participando de cada detalhe de seu relacionamento com Gardênia e das atividades do lar, procurava cada vez mais oferecer a ela momentos de alegria, porque preocupado com a impossibilidade de ter um filho sabia que Gardênia estava, psicologicamente, abalada e esse fato, certamente, seria o responsável pelas mudanças de comportamento do seu amor eterno.
O tempo não pára e outros espaços se abrem, assim, ao que chamamos de destino nada mais é do que um novo posicionamento adotado diante das mesmas situações que, anteriormente, passamos, cercadas por novas circunstâncias. Portanto, Gardênia escolhera uma nova vida, deixou-se levar pela beleza externa, desprezando tudo que os seus lindos olhos azuis não podiam enxergar. Acompanhou as verdades e mentiras de suas “amigas” e aceitou as investidas do Carlos.
O tempo não pára e, a partir daí tornou-se refém dos desejos e vontades daquele que só via em seus olhos azuis uma linda cor ou motivo de atração entre outras que igualmente eram ilusões materiais, como um corpo sem preceitos ou um simples ato biológico de agradável sensação.
Cai sobre Gardênia o peso da infidelidade e da traição. O espelho que todas as manhãs, após o banho e antes de ir para o serviço, mostrava a sua beleza e seus lindos olhos azuis, passa a incriminar-lhe. Percebe que sua fisionomia, dia-a-dia está mais sisuda, seus lábios não mais se abrem em sorrisos, não consegue sequer permanecer mais que uns poucos segundos olhando para si mesma e o seu corpo que tanto reverenciou, é apenas um documento comprobatório dos seus atos inconseqüentes. A angústia torna-se sua maior companheira e frustrada pela repugnante experiência, percebe que a felicidade não estava na beleza de Carlos, mas, ao seu lado, devidamente guardada no coração de Ícaro.
Realmente, todas as flores são lindas e algumas muito perfumadas, porém ao longo do tempo murcham, perdem o perfume e apodrecem, como a própria Gardênia que também foi uma flor ou mulher? Não! Apenas mais uma.
Não resistindo a tantas pressões, Gardênia, certa noite, após o jantar, resolve contar tudo para o seu feio de dar dó. Convida-o para sentarem-se no banco do quintal e diante dos três exemplares de gardênia, plantados logo após o casamento, expõe a Ícaro toda a verdade. Ele escutou-a, pacientemente e sem demonstrar nenhuma reação de ódio ou mesmo surpresa, acariciou os cabelos de Gardênia e disse-lhe:
- Vamos entrar e dormir? O inverno está chegando, olhe os botões das gardênias, já estão por abrir.
Extasiada diante da frieza com que Ícaro a escutou, Gardênia ficou sem ação, levantou-se, juntamente, com ele e foram dormir.
Na manhã seguinte, após o banho e antes de ir para o serviço, Gardênia olhou para o espelho e espantou-se, quando viu um grande ponto de interrogação escrito com seu batom. Arrumou-se, dirigiu-se à cozinha para tomar o café com Ícaro, aliás, como sempre fazia, mas ele não estava lá e sobre a mesa, três gardênias desabrochando faziam companhia para um bilhete que dizia:
- “O ponto de interrogação no espelho é meu último presente para você. Desde ontem à noite, a interrogação que trazia no peito se desfez. A partir de hoje desfrutarei do aroma e beleza das verdadeiras Gardênias, àquelas totalmente alvas, sem máculas, inocentes e verdadeiramente eternas”.
Escrevo porque sei, porque todos os dias eu acordo...vivo. Ser escritor é ter a capacidade de se mostrar por inteiro, sem traumas ou receios, expor apenas a sua verdade.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
sábado, 17 de novembro de 2007
Além da realidade
ALÉM DA REALIDADE
Roberto completara 83 anos, era uma linda tarde de verão, terça-feira, dia 5 de janeiro. Filhos, netos e bisnetos, todos reunidos, numa algazarra capaz de atormentar até aos surdos.
Rosa, sua esposa, aos 81 anos, na cadeira de rodas, com as mãos, saboreava uma fatia de bolo. Óbvio que muitos farelos escapavam de seus dedos e caiam sobre a saia e o tapete da sala.
A farra que todos faziam, própria das pessoas mais jovens e crianças, para Roberto e Rosa pouco importava, porque para eles era apenas uma linda tarde de verão.
Prazerosamente, apesar da proibição médica, Roberto oferecia goles de seu refrigerante para Rosa, escondido dos filhos e netos. Ela, docemente sorria para o marido. Aquela alegria, não poderia ser superada por nada de bom que nesse mundo possa existir. Afinal, a vida com seus intermináveis mistérios acaba por se tornar responsável pela maioria das infrações cometidas pela humanidade em busca do seu significado.
Roberto tinha consciência do ato infrator, porém a quem deveria atender? Como roubar tanta satisfação de sua amada?
Rosa o fitava com seu olhar ofuscado pela doença que impiedosamente lhe roubava até mesmo o direito de falar com o seu conivente parceiro, impedia-a de abraça-lo, devido à paralisia do braço direito e mantinha-a na cadeira de rodas. Com os olhos marejados e o sorriso forçado, Rosa sem palavras, mas com a brandura de um zéfiro ao fim de tarde, com o trêmulo braço esquerdo esgueirou-se entre as limitações impostas pela realidade e, num supremo esforço, com o dedo indicador dissipou as intermitentes lágrimas que, quando em quando, fugiam ao controle dos já fundos, verdes e tristes olhos de Roberto.
Jefferson, o filho mais velho, percebe que o pai está oferecendo refrigerante à sua mãe. Aproxima-se, interpela-o com certa veemência, retira-lhe o copo e com o dedo indicador, faz sinal de não para a mãe. Imediatamente, Jefferson retira-se e retorna para as conversas e brincadeiras.
Roberto pega seu lenço, limpa delicadamente a boca e o rosto de sua amada, beija-lhe a face e com as mãos alinha os seus brancos cabelos.
Marília, uma das netas, pára em frente à cadeira de rodas, olha para a avó e com ar de repulsa diz: “que caca!”, enquanto Rosa, sorrindo, com seu dedo indicador trêmulo tenta alcançá-la para oferecer-lhe mais um carinho, além dos milhares que já tinha lhe proporcionado em seus sete anos de existência. Marília recua rapidamente e sai em disparada. Nos lábios de Rosa, que nada escuta, o sorriso permanece, porém nos fundos olhos de Roberto, novas lágrimas se projetam sobre as rugas de sua face ante a cena que o deixa muito chocado e, novamente o trêmulo dedo indicador de Rosa, que não alcançara a face de Marília, dissipa-lhe as lágrimas carinhosamente.
Afinal, estão comemorando o qüinquagésimo aniversário de casamento de Roberto e Rosa, porém os nubentes pouco participam da festa.
Duas pequenas velas com os pavios já queimados estão sobre o último e grande pedaço de bolo comprado à última hora em uma padaria qualquer para substituir, pela primeira vez, os grandes e maravilhosos bolos de recheio que Rosa, esbanjando alegria, preparava para receber seus filhos, netos e bisnetos, nesta data.
Cenas e mais cenas do passado moíam o coração de Roberto, enquanto, cautelosamente, retirava os farelos de bolo presos à saia de sua amada. Em seu monólogo, já que não era escutado, deixava que as frases escapassem por seus olhos e chegassem aos de Rosa. Então, devidamente decifradas e entendidas, ela pedia com o dedo indicador que ele lhe trouxesse mais refrigerante e bolo, cada vez mais... Prontamente, ele armou um estratagema, dirigiu-se ao Jefferson e disse-lhe que iria dar umas voltas com a cadeira de Rosa no quintal, já que estava calor para que ela se distraísse um pouco. Numa rápida atenção, Jefferson balançou a cabeça em atitude permissiva.
No quintal, Rosa e Roberto comiam bolo e tomavam refrigerante à vontade. Ambos davam deliciosas gargalhadas, indiferentes a tremenda sujeira que faziam.
Passado algum tempo, Jefferson lembrou-se e foi até o quintal aonde deparou com aquela cena até hilariante. Ficou furioso, repreendeu-os e chamou-os de irresponsáveis.
Roberto e Rosa, de mãos dadas, sorriam muito, muito mesmo. Afinal de contas, para eles era apenas uma linda tarde de verão.
Ao anoitecer todos foram embora, mas Jefferson, como sempre o último a se retirar, chamou seu pai e disse-lhe:
- O senhor também está perdendo o juízo? Já não sabe que mamãe não pode tomar refrigerantes e nem comer muito doce? Parece-me que estás completamente fora da realidade!
Com um discreto sorriso, Roberto pôs a mão no ombro do filho e disse-lhe:
- Hoje você ainda não entende certas coisas, mas amanhã, provavelmente, compreenderás que tanto eu como tua mãe, de fato estamos fora da realidade, a bem da verdade, já estamos além da realidade.
Na manhã seguinte, Rosa e Roberto foram encontrados mortos em seu leito. Na mesa de cabeceira, estavam um prato de papelão com farelos de bolo, as duas pequenas velas, uma garrafa de refrigerante, um pequeno vidro de poderoso veneno e uma folha de caderno, onde se lia: “Agora, além da realidade, existindo ou não alguma coisa depois da vida terrena, não nos será permitido esclarecer tal fato porque, sem a dúvida, o ser humano certamente cometerá muito mais desatinos e maldades. Saibam que eu e sua mãe estamos super felizes, porque somos iguais, pois nada escutamos, vemos ou contestamos. Mas... Pedimos desculpas a vocês, filhos, netos e bisnetos, porque terão que limpar o tapete da sala, o quintal e o nosso quarto. Sabem como é, não? Foi nossa última farra! As duas pequenas velas no bolo trouxeram-nos a certeza do fim. Se a de número cinco encheu-nos de orgulho e saudade por lembrarmos de você Jefferson e seus quatro irmãos, a de número zero deixou-nos bem claro o que restava.”
Roberto completara 83 anos, era uma linda tarde de verão, terça-feira, dia 5 de janeiro. Filhos, netos e bisnetos, todos reunidos, numa algazarra capaz de atormentar até aos surdos.
Rosa, sua esposa, aos 81 anos, na cadeira de rodas, com as mãos, saboreava uma fatia de bolo. Óbvio que muitos farelos escapavam de seus dedos e caiam sobre a saia e o tapete da sala.
A farra que todos faziam, própria das pessoas mais jovens e crianças, para Roberto e Rosa pouco importava, porque para eles era apenas uma linda tarde de verão.
Prazerosamente, apesar da proibição médica, Roberto oferecia goles de seu refrigerante para Rosa, escondido dos filhos e netos. Ela, docemente sorria para o marido. Aquela alegria, não poderia ser superada por nada de bom que nesse mundo possa existir. Afinal, a vida com seus intermináveis mistérios acaba por se tornar responsável pela maioria das infrações cometidas pela humanidade em busca do seu significado.
Roberto tinha consciência do ato infrator, porém a quem deveria atender? Como roubar tanta satisfação de sua amada?
Rosa o fitava com seu olhar ofuscado pela doença que impiedosamente lhe roubava até mesmo o direito de falar com o seu conivente parceiro, impedia-a de abraça-lo, devido à paralisia do braço direito e mantinha-a na cadeira de rodas. Com os olhos marejados e o sorriso forçado, Rosa sem palavras, mas com a brandura de um zéfiro ao fim de tarde, com o trêmulo braço esquerdo esgueirou-se entre as limitações impostas pela realidade e, num supremo esforço, com o dedo indicador dissipou as intermitentes lágrimas que, quando em quando, fugiam ao controle dos já fundos, verdes e tristes olhos de Roberto.
Jefferson, o filho mais velho, percebe que o pai está oferecendo refrigerante à sua mãe. Aproxima-se, interpela-o com certa veemência, retira-lhe o copo e com o dedo indicador, faz sinal de não para a mãe. Imediatamente, Jefferson retira-se e retorna para as conversas e brincadeiras.
Roberto pega seu lenço, limpa delicadamente a boca e o rosto de sua amada, beija-lhe a face e com as mãos alinha os seus brancos cabelos.
Marília, uma das netas, pára em frente à cadeira de rodas, olha para a avó e com ar de repulsa diz: “que caca!”, enquanto Rosa, sorrindo, com seu dedo indicador trêmulo tenta alcançá-la para oferecer-lhe mais um carinho, além dos milhares que já tinha lhe proporcionado em seus sete anos de existência. Marília recua rapidamente e sai em disparada. Nos lábios de Rosa, que nada escuta, o sorriso permanece, porém nos fundos olhos de Roberto, novas lágrimas se projetam sobre as rugas de sua face ante a cena que o deixa muito chocado e, novamente o trêmulo dedo indicador de Rosa, que não alcançara a face de Marília, dissipa-lhe as lágrimas carinhosamente.
Afinal, estão comemorando o qüinquagésimo aniversário de casamento de Roberto e Rosa, porém os nubentes pouco participam da festa.
Duas pequenas velas com os pavios já queimados estão sobre o último e grande pedaço de bolo comprado à última hora em uma padaria qualquer para substituir, pela primeira vez, os grandes e maravilhosos bolos de recheio que Rosa, esbanjando alegria, preparava para receber seus filhos, netos e bisnetos, nesta data.
Cenas e mais cenas do passado moíam o coração de Roberto, enquanto, cautelosamente, retirava os farelos de bolo presos à saia de sua amada. Em seu monólogo, já que não era escutado, deixava que as frases escapassem por seus olhos e chegassem aos de Rosa. Então, devidamente decifradas e entendidas, ela pedia com o dedo indicador que ele lhe trouxesse mais refrigerante e bolo, cada vez mais... Prontamente, ele armou um estratagema, dirigiu-se ao Jefferson e disse-lhe que iria dar umas voltas com a cadeira de Rosa no quintal, já que estava calor para que ela se distraísse um pouco. Numa rápida atenção, Jefferson balançou a cabeça em atitude permissiva.
No quintal, Rosa e Roberto comiam bolo e tomavam refrigerante à vontade. Ambos davam deliciosas gargalhadas, indiferentes a tremenda sujeira que faziam.
Passado algum tempo, Jefferson lembrou-se e foi até o quintal aonde deparou com aquela cena até hilariante. Ficou furioso, repreendeu-os e chamou-os de irresponsáveis.
Roberto e Rosa, de mãos dadas, sorriam muito, muito mesmo. Afinal de contas, para eles era apenas uma linda tarde de verão.
Ao anoitecer todos foram embora, mas Jefferson, como sempre o último a se retirar, chamou seu pai e disse-lhe:
- O senhor também está perdendo o juízo? Já não sabe que mamãe não pode tomar refrigerantes e nem comer muito doce? Parece-me que estás completamente fora da realidade!
Com um discreto sorriso, Roberto pôs a mão no ombro do filho e disse-lhe:
- Hoje você ainda não entende certas coisas, mas amanhã, provavelmente, compreenderás que tanto eu como tua mãe, de fato estamos fora da realidade, a bem da verdade, já estamos além da realidade.
Na manhã seguinte, Rosa e Roberto foram encontrados mortos em seu leito. Na mesa de cabeceira, estavam um prato de papelão com farelos de bolo, as duas pequenas velas, uma garrafa de refrigerante, um pequeno vidro de poderoso veneno e uma folha de caderno, onde se lia: “Agora, além da realidade, existindo ou não alguma coisa depois da vida terrena, não nos será permitido esclarecer tal fato porque, sem a dúvida, o ser humano certamente cometerá muito mais desatinos e maldades. Saibam que eu e sua mãe estamos super felizes, porque somos iguais, pois nada escutamos, vemos ou contestamos. Mas... Pedimos desculpas a vocês, filhos, netos e bisnetos, porque terão que limpar o tapete da sala, o quintal e o nosso quarto. Sabem como é, não? Foi nossa última farra! As duas pequenas velas no bolo trouxeram-nos a certeza do fim. Se a de número cinco encheu-nos de orgulho e saudade por lembrarmos de você Jefferson e seus quatro irmãos, a de número zero deixou-nos bem claro o que restava.”
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Condorcet Aranha
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sábado, 10 de novembro de 2007
Sonhos marmóreos e a verdade
SONHOS MARMÓREOS E A VERDADE - poesia – autor: Condorcet Aranha
Sentado na lápide de um sepulcro,
embalado por marmóreos sonhos infantis
ante uma vida que julgava interminável,
até pensei que um destino esplendoroso,
apesar da fome, companheira inseparável,
rasgando o estômago num processo doloroso,
pudesse vir com a herança que não tinha,
de um passado mórbido e implacável,
a ressuscitar na alforria juvenil,
toda angústia de um peito abominável
em que a verdade sorrateira se avizinha
para provar que sendo um objeto com aresta,
estou ferindo inocente a sociedade
por querer participar da vida, essa festa,
que todos têm e almejam com ansiedade,
onde o futuro é somente quem atesta
se fui, diante do escrito por meu passado,
um alfarrábio criminoso e irresponsável,
por ter nascido de um estupro delinqüente,
ou se agora na verdade do presente
sou alguém, como ninguém, que não imundo
aqui na vida, essa herança Onipotente,
como são todos objetos deste mundo.
Em pé, ao lado da lápide de um sepulcro,
sentado na verdade de um adulto
embalo nos meus sonhos de saudade,
junto da fome que ainda sem indulto,
persiste nas lembranças do passado
para entender porque mantendo a lealdade,
agora tenho um coração abandonado
dentro do peito repleto de ilusões,
já no ocaso merencório do destino,
revendo a vida, oferece mil perdões
a tantos quanto lhe induziram ao desatino
ou até julgaram a aparência com maldade,
ante o semblante carrancudo e sofredor
que ainda busca na beleza do presente
colher nos ramos da incerteza o seu amor
e poder cantar, chorar, gritar, também sou gente.
Agora me banhando no futuro,
aonde as águas cristalinas não escondem meu passado,
revivo com certeza as emoções
sentidas lado a lado com as paixões
ciente de que o peito está seguro
convicto de que a solidão,
será a companheira como a fome
doída qual o injúrio das mentiras,
rasgando as mãos de quem as tome
para julgar ou entender um cidadão.
Assim a despedida é mais serena,
a noite se completa em escuridão,
a brisa pelo vale é mais amena
e a lua não renova e sim se esconde.
Os sonhos, as saudades e as lembranças
prescrevem como angústias de crianças,
deixadas sobre a lápide marmórea,
sepulcro inexorável da verdade,
que não refuta o seu filho inconseqüente,
por ter acompanhado a sua história
iniciada num estupro delinqüente.
_______________________________________________________________________
(A versão italiana desta poesia ficou entre as dez finalistas do Concurso Internacional de Poesias “Il Giunco”, Itália, obtendo o 5° lugar na votação dos leitores.)
Obteve também o 1º lugar no Premio Internacional de Poesias – Santa Maria della Luce- (Itália) 2007.
Sentado na lápide de um sepulcro,
embalado por marmóreos sonhos infantis
ante uma vida que julgava interminável,
até pensei que um destino esplendoroso,
apesar da fome, companheira inseparável,
rasgando o estômago num processo doloroso,
pudesse vir com a herança que não tinha,
de um passado mórbido e implacável,
a ressuscitar na alforria juvenil,
toda angústia de um peito abominável
em que a verdade sorrateira se avizinha
para provar que sendo um objeto com aresta,
estou ferindo inocente a sociedade
por querer participar da vida, essa festa,
que todos têm e almejam com ansiedade,
onde o futuro é somente quem atesta
se fui, diante do escrito por meu passado,
um alfarrábio criminoso e irresponsável,
por ter nascido de um estupro delinqüente,
ou se agora na verdade do presente
sou alguém, como ninguém, que não imundo
aqui na vida, essa herança Onipotente,
como são todos objetos deste mundo.
Em pé, ao lado da lápide de um sepulcro,
sentado na verdade de um adulto
embalo nos meus sonhos de saudade,
junto da fome que ainda sem indulto,
persiste nas lembranças do passado
para entender porque mantendo a lealdade,
agora tenho um coração abandonado
dentro do peito repleto de ilusões,
já no ocaso merencório do destino,
revendo a vida, oferece mil perdões
a tantos quanto lhe induziram ao desatino
ou até julgaram a aparência com maldade,
ante o semblante carrancudo e sofredor
que ainda busca na beleza do presente
colher nos ramos da incerteza o seu amor
e poder cantar, chorar, gritar, também sou gente.
Agora me banhando no futuro,
aonde as águas cristalinas não escondem meu passado,
revivo com certeza as emoções
sentidas lado a lado com as paixões
ciente de que o peito está seguro
convicto de que a solidão,
será a companheira como a fome
doída qual o injúrio das mentiras,
rasgando as mãos de quem as tome
para julgar ou entender um cidadão.
Assim a despedida é mais serena,
a noite se completa em escuridão,
a brisa pelo vale é mais amena
e a lua não renova e sim se esconde.
Os sonhos, as saudades e as lembranças
prescrevem como angústias de crianças,
deixadas sobre a lápide marmórea,
sepulcro inexorável da verdade,
que não refuta o seu filho inconseqüente,
por ter acompanhado a sua história
iniciada num estupro delinqüente.
_______________________________________________________________________
(A versão italiana desta poesia ficou entre as dez finalistas do Concurso Internacional de Poesias “Il Giunco”, Itália, obtendo o 5° lugar na votação dos leitores.)
Obteve também o 1º lugar no Premio Internacional de Poesias – Santa Maria della Luce- (Itália) 2007.
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Condorcet Aranha
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