sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

PENSAMENTOS DE CONDORCET

"Quando um homem consegue expor seus sentimentos sem restrições, torna-se poeta"

A CAIXINHA DE JÓIAS

Condorcet Aranha

    
      Wild completara dezoito anos e estava eufórico por adquirir o salvo-conduto ou, como diziam os escravos, a sua alforria.  
      Bernardete (sua avó), que estava muito doente, deu-lhe de presente uma “caixinha de jóias” e pediu que só a abrisse quando completasse 60 anos. Disse-lhe ter jogado a chave fora porque assim, far-lhe-ia refletir, todas as vezes que a curiosidade quisesse vencer a sua razão. Outrossim, dar-lhe-ia forças, em muitos momentos, para suportar situações difíceis, pelas quais certamente passaria até completar os sessenta anos. Em janeiro do ano seguinte, Wild terminou o serviço militar e, dias depois, sua avó faleceu. Sentiu que, com ela partiam, também, muitos momentos de alegria, satisfação, atenção, carinho, consolo e educação. Sozinha, desde o dia em que a fatalidade  de uma colisão entre dois ônibus, levou seu avô, pais e a empregada para o repouso eterno, e com uma mísera pensão, fê-lo um homem de bem, com saúde e dignidade. Para Wild foi o maior teste de resignação pelo qual passou. 
    Já era adulto e o mundo abria-se diante dos seus olhos sem que nenhum elo vivo restasse dos seus antepassados. Tinha que enfrentar aquela realidade. Jovem, como a maior parte da população brasileira, desempregado e desamparado, com pouca cultura, muita fome e incrédulo quanto aos rumos do país, quase sem esperanças, olhou para a “caixinha de jóias”, uma das poucas coisas que lhe restou na mochila, entre roupas e objetos de uso pessoal.  Pensou em abri-la. Mas como! Estava com dezenove anos, era um homem de palavra e racional.  Não! A honestidade fazia parte da herança que sua avó lhe deixara e jamais poderia desaponta-la! 
     Obrigado a deixar os cômodos onde moravam de aluguel, caminhou pelas ruas e bairros, procurando um abrigo e nada achou!  Procurou um albergue, mas não havia na cidade; bateu em portas de fábricas, lojas, casas e... Nada! Continuou a via sacra em ruas mais distantes, rodovias, outras cidades e... Nada! À noite, abrigado sob marquises, pontes, sacos plásticos quando chovia, ou mesmo ao relento sobre bancos de praças abandonadas, passava horas conversando com sua “caixinha de jóias”. Eram os seus momentos de paz, oração e reflexão em que, dia após dia, via as esperanças partirem como as águias, distanciando mais e mais as suas ilusões. Enfrentando o frio ou calor, o vento ou a chuva, ainda tinha que se proteger de indesejáveis visitantes.  Não mosquitos, morcegos, baratas ou ratos!  Nada disso! Só gente! Gente que está em todas as partes, faz qualquer coisa, infringe aos mais elementares princípios de respeito, dignidade, honestidade, higiene e educação. Expressão viva da marginalidade, desgoverno, insegurança, revolta e desamor que, na calada da noite, busca arregimentar soldados para o seu clã de vícios e quem sabe, atos espúrios como o sexo sem restrições, o roubo, a droga ou até mesmo a criminalidade. Sim, a criminalidade! Porque não?  O que podem esperar da vida? Nada! 
   Os anos passam. Ruas, casas, estradas, veículos, tudo se aprimora, no tamanho e luxo. Também a marginalidade é maior, tal qual a pobreza. Crianças abandonadas, insegurança, descrença, multiplicam-se.  Enfim, uma sucessão de mesmices como o badalar de sinos sem fé ou a fosca luz de uma liberdade sem paz, sempre no rumo da inconseqüência e desigualdade, numa sociedade heterogênea, absorta pela omissão. Assim foi que Wild conheceu o mundo, a derrota, o sofrimento e a solidão. Aprendeu com a leitura de notícias estampadas em velhos jornais, com os quais se aquecia, que elas permaneciam atuais. Entendeu que mudavam os seus atores, as cores, as formas, mas não o conteúdo e nem o significado. Pasmou-se ao ver que os restos que o sustentava, e a muitos outros, acabaram por convencê-lo da importância de sua própria existência, pois evitava maiores desperdícios. 
    Seis anos depois, seu Deus parecia diminuir a cada noite, suas orações eram cada vez mais curtas, “a caixinha de jóias” ficava esquecida, por dias seguidos, no fundo da imunda mochila.  
    Num belo dia, enquanto Wild caminhava pela avenida, uma buzina disparou, impetuosa! - Ao olhar para a rua viu uma criança atônita! - Ele correu em sua direção e, num movimento puramente instintivo, segurou-a, jogando-a para a calçada. 
     Depois de vinte dias em coma, Wild acordou no quarto de um hospital. 
Ao ver uma senhora ao lado da cama, perguntou-lhe: Onde está a criança?
 Ato contínuo, ela o abraçou e chorou copiosamente, repetindo a seguinte frase: “Graças a Deus! Você voltou! Muito obrigado... Muito obrigado...” 
Passados aqueles momentos de emoção e surpresa, ficou sabendo que a criança nada sofrera e que, aquela senhora, Dolores, era sua mãe; que esteve em coma devido ao impacto que sofrera do ônibus e que mais alguns dias de observações, lhe dariam alta do hospital para que retornasse às suas atividades normais. 
Dolores aproximou-se, beijou respeitosamente sua testa e disse-lhe: “sexta-feira virei busca-lo e o levarei para minha casa. Conhecerás meu marido e verás como está o nosso filho. - “Afinal, agora ele tem dois pais, o senhor não acha?” 
As lágrimas escorreram pela rude face de Wild e, como por encanto, fizeram com que abrisse um largo sorriso nos lábios que, desde a partida de sua avó, jamais houvera acontecido.
Com seu lenço perfumado e de uma brancura que há muito tempo Wild não via, Dolores enxugou-lhe as lágrimas, colocou em suas mãos “a caixinha de jóias”, desculpou-se por não ter conseguido salvar mais nada dos seus pertences e afirmou nem entender como aquela caixinha, estava dentro de sua mão. Despediu-se e recomendou-lhe que a aguardasse na sexta-feira pela manhã. 
Sozinho, ele passou a lembrar do passado e perguntou-se: “Por que acordar se tudo já tinha terminado? Para que continuar esse verdadeiro turbilhão de nadas?”. 
Pensou fugir, jogar-se pela janela do prédio e até antecipar o próprio fim. Porém, lembrou da avó e de suas palavras. Como poderia ser tão covarde se precisava viver ao menos sessenta anos, para abrir “a caixinha de jóias” ? 
       Na sexta-feira, dez horas da manhã, a enfermeira entrou no quarto, forneceu-lhe roupas e calçados novos. O cabelo e a barba já tinham sido cuidados antes do banho matinal. Wild levantou-se e foi vestir-se. 
- Há muitos anos não me via tão bonito, exclamou diante do espelho. 
- De volta ao quarto, a enfermeira perguntou-lhe se nada tinha esquecido.
- Respondeu que não, pois tudo que possuía era aquela caixinha de jóias e o documento que encontraram na suja e velha camisa. Agradeceu por tudo, beijou a mão da enfermeira e foi para o saguão do hospital, onde Dolores já o aguardava.
       Durante o almoço, soube que ficaria morando na edícula da casa e que trabalharia na fábrica do Nelson, pai de Felipe. Depois desse dia sua vida mudou totalmente. Aprendeu um ofício, fez cursos de especialização e tornou-se um profissional respeitado. Em casa tinha com quem conversar, trocar informações e ainda um “filho” que não saía do seu pé.  Tornou-se um novo membro da família. 
     Com trinta e sete anos, encontrou seu espinho e acabou casando. Aumentou os cômodos da edícula e ali, com a esposa Marta, criou dois filhos.  Não tinham sonhos ambiciosos e foram muito felizes.  
      Felipe, muito estudioso, havia crescido, casado e estava realizando um curso de pós-graduação no exterior, era o orgulho de todos.
     Wild nunca mais deixou de orar com “a caixinha de jóias”, antes de deitar-se. Agradecia cada momento de sua vida, as alegrias, conquistas e também as angústias, derrotas ou contratempos, pois aprendera que assim amadurecia e conseguia a paciência indispensável na busca pela paz, compreensão e respeito ao próximo. - Como sua avó foi importante! (Pensava) - Além de criá-lo com dignidade, respeito, educação e perseverança, lhe fez forte o suficiente para resistir à fome, solidão, abandono, desonestidade e também às investidas do mundo mau. Acreditava ainda que, se alguma coisa existisse de sobrenatural, certamente teria sido sua avó quem colocou, no dia do acidente, “a caixinha de jóias” dentro de sua mão, enquanto desmaiado, permanecia estatelado no asfalto quente.
    Hoje, Wild completou sessenta anos e adquiriu a maturidade e compreensão que, segundo sua avó, lhe dariam a capacidade de entender certos fatos e atitudes. - Ele está nervoso e curioso para saber o que continha “a caixinha de jóias”. Também, está temeroso pelo que ela possa trazer-lhe de surpresa, nesse momento em que está tão feliz. Porém, se foi capaz de resistir todo esse tempo, como combinado, aos dezoito anos, é óbvio que agora seria suficientemente forte, para receber qualquer impacto da verdade que sua avó lhe tivesse guardado.  Sentou-se à beira da cama e com o auxílio de um canivete, rompeu a frágil fechadura da caixinha. Em seu interior estava uma carta bem dobrada e um retrato de mulher. Abriu a carta e pôs-se a ler: “Wild, peço-lhe perdão! No dia do acidente, com você no colo, diante da família dizimada, pensei com egoísmo! Peguei os documentos da sua avó, essa aí do retrato! Depois enterrei os meus documentos ao lado da estrada. Assim, consegui ficar com a pensão do seu avô e cria-lo. Sei que com dificuldades e pouco estudo, mas com muito amor. Tive medo que o levassem para um desses orfanatos mal administrados! Hoje você deve saber como é! Aceite, por favor, meu beijo e abraço. Deus há de protege-lo e dar-lhe uma nova família, além daquela que você formará”.
       Encontrando trilhas entre as rugas de Wild, as lágrimas escorreram; suas mãos trêmulas tentaram conte-las, mas eram muitas, encharcaram inclusive a sua alma e diluíram em seu coração, qualquer orgulho que ali ainda pudesse existir. Quem seria aquela mulher que lhe deu “a caixinha de jóias”? Não importa! Do alto dos seus sessenta anos ele já sabia o que significavam a fé, a paz, o amor e a própria vida.
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1º Lugar - Ilha das letras – São José- SC 

Menção Honrosa -Coletânea: Brasileiros em prosa e verso – Edições ALBA


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O MENINO VISIONÁRIO

Condorcet Aranha


       Lucas não era apenas mais um entre os meninos de nove a treze anos, era sim e antes de tudo um sonhador inveterado. Não havia manhã em que seus sonhos não trouxessem verdadeiras histórias de fantasias aonde, inevitavelmente, protagonizava, como ator principal, atos incríveis de coragem, compaixão, amor ou ódio, guerra ou paz, transitando livremente nos meandros de diferentes sentimentos, impune e irreverente, sem sofrer nenhuma retaliação por suas atitudes imperialistas ou ao menos impensadas.
       Mais um dia, corajosamente, nascia e teria que sobreviver à inventividade de Lucas, era manhã de primavera, as flores deixavam que a suave brisa distribuísse seus deliciosos aromas a tantos quanto dotados de olfato por ali passassem. Borboletas coloridas, mamangabas e inúmeros outros insetos além de beija-flores e outros pássaros, buscavam os néctares cujos sabores variavam do bom ao ótimo, assim, diziam as vespas e moscas da vida.
       Aquela manhã foi única, Lucas levantara com a cachorra, sua criatividade iria extrapolar os limites da razão, da lógica ou mesmo aos absurdos de um sonho infantil que o levara aos extremos das aventuras.
       Após as atividades higiênicas matinais e o lauto desjejum, Lucas armou-se de um arco e flechas que ele mesmo confeccionara no dia anterior, saindo rumo àquela que seria, pensava, apenas, mais uma de suas bem sucedidas estripulias. Saiu dos limites do quintal de sua casa e partiu rumo à estrada de acesso ao morro da cachoeira, aonde podiam ser encontradas diversas espécies de aves, mamíferos e roedores como também algumas espécies de peixes que habitavam as límpidas águas do Rio Fantasma. A Cachoeira do Esqueleto também recebeu esse sugestivo nome, porque ali foram encontrados diversos esqueletos, quando foi ocupada daquela área. A falada Estrada das Almas é que conduzia à trilha da cachoeira e, devido a tantos nomes fantásticos, histórias e lendas foram surgindo na região e atravessando gerações. Na inocência dos seus onze anos e levado por seu incontrolável espírito de aventura, Lucas havia programado para aquela manhã uma caça aos “Espíritos Maus”, como apelidou alguns dos animais predadores que viviam naquela área do Morro dos Mortos. Depois de ultrapassar mais da metade da grande subida do morro e entrar na Trilha dos Sacrifícios, que levava à cachoeira, passou a comportar-se como um silvícola, falando uma língua que só ele entendia. Criava termos à medida que sua imaginação formava cenas e situações inusitadas de grandes perigos ou aproximação de animais ferozes. “Uga, uga, gorila bandido...” falou ao avistar um sagüi que o seguia nos arvoredos na expectativa de receber de suas mãos alguma guloseima. Mais adiante, uma juriti cruzou a trilha a sua frente, assustando-o, e ele disse a seguinte frase:
-     “Teremba, teriba, vampiro da morte.” Assim continuou seu destino que era o pico do Morro dos Mortos.
       Muitas outras incursões foram realizadas, anteriormente, por Lucas, porém nenhuma delas alardeou a pequena e pacata cidade interiorana, acostumada às ficções das narrativas do menino visionário, após retornar de suas aventuras, como a daquela manhã de primavera, em que um cenário de colorido ímpar seria ofuscado ou até mesmo despercebido por todos que ali viviam.         
       Ninguém se atrevera a chegar ao pico do Morro dos Mortos, por isso a meta traçada por Lucas não era apenas mais uma viagem da mente infantil, mas, sim, uma aventura adulta a qual requeria maturidade, sagacidade, destreza, inteligência e capacidade de resistir às circunstâncias adversas e vencer os obstáculos ou inimigos que a sua frente, inesperadamente, surgissem.
       “Karuba vencer inimigos, Karuba ser valente, Karuba não recuar nunca, Karuba chegará ao pé do céu e verá atrás do Morro dos Mortos a Cidade dos Sagüis Dourados” . Portanto, identificando-se como o guerreiro Karuba, o menino seguia na sua trajetória em busca da Cidade dos Sagüis Dourados, dos quais por diversas vezes falara ao retornar de suas aventuras para seus amigos que jamais deram importância ao fato e ainda comentavam que ele era um grande mentiroso. Ninguém vira um sagüi, naquela região, que não fosse preto e cinza de cara branca.
       Concentrado na sua busca, Lucas sequer percebeu que o sol abandonava a linda tarde de primavera e as garças brancas se acomodavam nos galhos das árvores às margens do rio Fantasma, já pequeno aos olhos do menino que vislumbravam um distante vale verde o qual logo desapareceria ante as incertezas e surpresas que, em breve, o negro manto da noite, cobriria com seus enigmas e medos. 
       Karuba nada teme, Karuba sobe naquela grande árvore e ali passa noite sossegado. Assim, procedeu e depois de alcançar um dos primeiros galhos, bem grosso, acomodou-se em uma das ramificações e procurou relaxar, já vencido pela fadiga da longa caminhada. Enquanto isso a lua mandava sua luz prateada entre as nuvens e copas das árvores para alertar Karuba sobre os perigos da noite e, graças a sua exuberância, mostrou ao menino visionário que apenas alguns galhos acima da onde estava, uma onça parda preparava-se para enfrentá-lo em sua descida. Karuba, apesar de apavorado, pegou cuidadosamente uma de suas pequenas flechas, colocou no arco, esticou com toda a força, mirou bem e, invocando mentalmente aos espíritos da floresta, disparou seu artefato. Surpreendida pelo impacto da pequena flecha que atingira uma de suas vistas a onça desequilibrou-se, caiu bruscamente, saiu em desabalada carreira do local. Sentindo-se um destemido guerreiro, alentado pela grande façanha, Karuba entregou-se à satisfação de um incontrolável e reparador sono. Lá pelas tantas, uma enorme espada de prata cortou o manto negro da noite e fez-se acompanhar por um terrível trovão dando um tremendo susto no menino que, como a onça parda, desequilibrou-se e caiu ruidosamente sobre as folhas secas que revestiam o solo. Refeito da grande surpresa, Karuba enfrentaria uma forte tempestade e por mais que tentasse um abrigo, não conseguiu achar uma proteção satisfatória até que a alvorada chegasse e ainda o encontrasse muito molhado e com calafrios, apesar da tempestade ter partido, deixando a seguir seus passos uma garoa intermitente que insistia em baixar cada vez mais a temperatura.
      O sol parecia estar aborrecido com Karuba e juntamente com a garoa, insistiam em deixá-lo a tremer cada vez mais...  
      Reunindo todas as forças que lhe restavam, iniciou a descida rumo ao vale verde, ainda distante dos seus olhos, mas muito perto de sua incontrolável curiosidade que o empurrava para aquele lugar. Depois de algumas horas, vencidos pela persistência de Karuba, a garoa fugiu e o sol deixou que seus raios dourados iluminassem aquele esplendoroso lugar que abria suas portas, para que os pequeninos pés do menino o invadisse e seus curiosos olhos, bem arregalados, vasculhassem os quatro cantos, desnudando toda a sua curiosidade e deixando-o senhor da realidade, pujança e razão porque tantos obstáculos surgiram a sua frente, tentando impedi-lo de ali chegar. De repente, uma família com oito sagüis-dourados, surgiu diante dele e sem nenhum receio aproximou-se como o reverenciando. O menino ficou atônito e ainda sob a ação da perplexidade, tirou de sua mochila uma banana e ofereceu-lhes. Os sagüis-dourados pegaram a banana das mãos de Karuba e, depois de comê-la, fizeram uma verdadeira algazarra, subiram nos ombros do aventureiro e deixaram que as suas mãos os acariciassem sem nenhum receio. A interação era magnífica, a exuberância da natureza, os sagüis-dourados, a banana, Karuba, a inocência, a reciprocidade do amor e confiança, eram emoldurados, pela fé divina de que ainda teremos um mundo de razão e paz.
       Depois de matar sua curiosidade, o menino visionário, experimentou pela primeira vez as maravilhas do mundo real e, em apenas dois dias de aventuras, como um fruto colocado na estufa, precocemente, amadurecera o suficiente para jamais deixar de se posicionar ao lado da verdade e agir com integridade e razão.
       O longo e acidentado caminho de volta, consumiu o resto da capacidade física de Lucas que acabou vencido ao atingir o pico do Morro dos Mortos. Tomado por uma forte febre e uma tosse persistente, já sem fôlego, o aventureiro recostou-se na mesma árvore aonde dormira na noite anterior, mas sem forças para galgá-la. 
       O sol partira, novamente, o manto escuro da noite ia cobrindo todo o cenário, Karuba ficara com os sagüis-dourados, e ali estavam os olhos de Lucas totalmente fechados, alheio às circunstâncias e perigos. Foi quando a lua intensificou seu luar numa frustrada intenção de avisar ao menino Lucas que, no alto da árvore, a onça parda iniciava sua descida em busca de alimento e, portanto, o confronto seria inevitável. Sorrateiramente, a onça parda aproximava-se, a febre mantinha o aventureiro combalido, quando tudo levava a crer que o fim estava chegando, um tiro certeiro derrubou a onça, que ao cair sem vida ao lado de Lucas, acordou-o. Ao abrir seus olhos com dificuldade, ante a verdade da cena, abraçou-se a onça e pediu-lhe perdão.
       Os soldados chegaram e resgataram o menino, levando-o ao hospital aonde recebeu o tratamento necessário. Dias depois, já tendo passado por uma série de interrogatórios e sofrido todo tipo de repreensão, Lucas era outro menino, apesar de se manter curioso, alegre e descontraído. Continuava contando suas histórias fantásticas, porém nunca mais trouxe qualquer animal para apresentar como troféu ou comprovação da sua criatividade ou saiu rumo ao Morro dos Mortos, local que ele jurava, de pés juntos, ser amaldiçoado. Só que todas as vezes que fazia essa jura, tratava de cruzar os dedos de uma das mãos à costa como para obter o perdão pela injúria. 
       Aquele tiro que pôs fim a onça parda, também eliminou para sempre o menino visionário que, depois da visita ao encantado vale verde, entendeu que as verdades são eternas e os sentimentos puros estavam naquela família de sagüis dourados que deveria permanecer como uma simples lenda, garantindo-lhes a privacidade e o direito de viver e multiplicar-se. Assim, Lucas manteve esse segredo por toda a sua vida, que não foi curta, permitindo que a natureza mantivesse seu curso natural, com equilíbrio e dignidade.
       Pouco antes de deixar seus curiosos olhos fecharem-se para sempre, ante a pergunta de seu neto “Luquinha”, sobre o que existiria atrás do Morro dos Mortos e a lenda do sagüi dourado, respondeu-lhe:
       -    Olha menino, atrás daquele morro só existe a maior vontade de Deus e saiba que como a vontade não tem forma nem cor, certas curiosidades devem ser eternizadas. Passar em branco como as nuvens porque, esta é a cor da indispensável paz assim na terra como no céu.

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5º Concurso de Poesia e Prosa da SPPA - Menção Honrosa categoria prosa